domingo, 8 de janeiro de 2012

Ok, espelho. Voce tem razão!



...
- Ok... Tem alguma ideia, um fato ocorrido, que explique o porquê do seu mau relacionamento com as pessoas a sua volta?
- Não entendo muito sobre psicólogos, mas acho que, mesmo contra vontade, estou te pagando pra me responder isso...
- Certo. Pelo que entendi sua mulher o obrigou a se consultar. Por que sua resistência a isso, a procurar ajuda? Se é que quer se ajudado, o que neste caso será muito importante.
- Cara, eu não quero ajuda. Se quisesse eu teria pedido. E ajuda sem pedido não é ajuda, é socorro. Eu não gosto de psicólogos. Eu não vejo como tu possas me ajudar, tenho certeza que tu só estudaste psicologia pra entender ou resolver algum problema ou trauma teu... Isto é bem óbvio. Quem gosta de desenhos quando criança se interessa de uma maneira profissional por desenhos quando adulto. Uma criança apaixonada por carros provavelmente será interessada e trabalhará em alguma área da mecânica de automóveis. Se teu pai bebia e te batia, se teu cachorro morreu, se teu tio tentou te comer, se flagrou tua mãe chupando teu pai... Enfim, que bom que tenha procurado uma solução pros teus problemas estudando psicologia, mas me deixe com os meus. Estou aqui contra minha vontade, é simples...
- É isto que pensa sobre psicólogos? [risos irônicos]
- Não, só quis parecer simpático... [sorrisos irônicos]
- Não acha que talvez se esconda atrás desta anti-sociabilidade por medo de fracassar se tentar ser uma pessoa normal? Sendo assim és forte, solitário no seu “grupo”, o melhor... Acha que este é o teu problema, medo?
- Sim, me cago de medo. Não consigo imaginar acordando todos os dias as 7hrs vestindo uma roupa engomada, ir trabalhar no mesmo horário de todas as outras pessoas. Imagino o quão horrível deve ser desejar ter o mesmo carro que todos desejam, mas não tem. Deve ser uma coisa desgraçada todos os dias almoçar no mesmo horário e voltar pra casa na mesma hora. Assistir os mesmos programas babacas na TV, que todos também estarão ao mesmo tempo assistindo. E pior, rindo. Ou chocados, na outro dia “nossa, viu ontem na TV a criança que levou um tiro?” e o outro responde “porra! Não vi, mas a vizinha do meu cunhado me contou no ônibus vindo pra cá”. E eu, o que eu diria?! Talvez “sorte da criança que não precisará aturar toda essa merda”. Essas coisas me devoram, me destroem e reconstroem, me faz fraco, não quero isso.
- Bom, mas essa rotina de coisas faz parte da vida, também servem muitas vezes como aprendizado.
[Olha ai, vem o comido pelo tio falar em aprendizado...]
- Não é sobre aprender, ganhar ou perder que estou falando, e sim sobre propósito. Por que devo acordar todos os dias as 7hrs, dizer “bom dia” às mesmas pessoas que vou passar todos os dias pela rua, desejar dinheiro e uma boa vida social se já há bastante gente fazendo isto? Já há bastante gente fazendo esse trabalho para o mundo andar. Eu não vou me render, se alguém reclama de minha ausência é porque faço falta, e não excesso. É simples, questão de gosto e afinidade, não gosto de pessoas. Na teoria não me importo com crianças mortas nem com a alta do dólar, não acho graça de comédia e não choro no amor. Eu não faço parte disso...
- Bom, mas não me parece muito lógica a sua postura. Você tecnicamente é uma boa pessoa, tem esposa, família, um emprego, nenhuma passagem criminal... Pode-se dizer que é uma pessoa exemplar.
- Sim, na prática sou uma boa pessoa, e até me esforço bastante pra ser, e mais ainda pra parecer.
- Ok, então me explique o porquê desse repudio todo a vida se na pratica é alguém tão... Tão... Ético, por assim dizer.
- Como falei, não me importo, dou a mínima pra onde as pessoas levam a suas vidas, ou mortes. Não me importo se o mundo está afundando ou emergindo na merda. Afinal, não tenho ligações com elas, altruísmo não se faz presente. Mas faço questão de na prática ser bom, o melhor dentro dos meus limites. É prazeroso pra mim, é como dar um tapa em suas caras e dizer “olhem como vocês são uns bostas! Eu não gosto do seu jogo, não gosto dos jogadores, muito menos de suas regras, e ainda assim consigo ser melhor que vocês. Vocês são uns bostas!“. Mesmo que no fundo, na parte teórica, não consiga imaginar desgraça maior que estudar tantos anos sobre assuntos que não me interessam pra passar um terço do dia, seis dias por semana, fazendo algo que não gosto pra, não sei o porquê, no final do mês comprar coisas que não preciso e ainda ter a cara de pau de resmungar “nossa, como a vida está difícil” e alguém responder “é mesmo, ta fácil pra ninguém”. É isso.
-Então és movido por prazer? Ou felicidade, como preferir chamar...
-Sim. Acho que sim... Odeio muitas coisas, amo poucas. Mas o ódio em contraste me faz amar ainda mais essas poucas. Umas das coisas que mais me enoja nas pessoas comuns é a falta de visão. Visão geral das coisas. Falta de cálculos. Faltam frieza e razão nas decisões. Esforçam-se tanto para “conquistar” suas vidas, se acharem vencedores, mas nem ao menos pararam pra pensar se era isso mesmo que queriam, ou se mesmo isso é uma vitoria, se isso é ser bem sucedido ou errar é fracassar. Não consigo medir e comparar o prazer em ter uma casa na praia, uma lancha, um carrão bonito e todos esses clichês que as pessoas correm atrás (e ainda normalmente não alcançam) com o prazer de sentar-se sob a sombra de uma arvore pra ler um livro, sentado com o cu na grama. Não sei, não consigo medir os prazeres, mas consigo facilmente escolher a mais fácil, com menos dor e sofrimento pelo caminho. Com menos “oi, como vai?”. Não me importa se pareço acomodado. A segunda opção é mais fácil, acessível e prazerosa a meu ver. Mas infelizmente nesse mundo até ter um livro e espaço sob uma árvore é algo difícil.
...
Porra, não acredito que minha mulher me fez gastar meu suado dinheiro indo ao psicólogo. Agora volto a pé pra casa, e aposto que ele vai de carro. Veado. Se não gastasse tanto com bobagem também poderia ter um carro. Eu, o cara que prefere um livro e uma arvore porque tem preguiça de correr atrás dessas coisas legais que todo mundo quer ter. Merda... E olha essas vitrines, cheias de coisas feitas pra gente desejar. Eles não precisam do nosso dinheiro, existem coisas mais valiosas que dinheiro, e uma delas é a submissão. Essas vitrines cheias não são pra atrair nosso dinheiro, e sim nossa atenção, nossos desejos. Baixamos a cabeça e trabalhamos quietos, no máximo sussurrando sobre o quanto vamos nos esforçar mais e mais pra alcançá-los. Acho que até nossa indignação e revolta contra é algo que eles planejam pra que não nos tornemos ociosos e fáceis. Olha esse monte de mendigos jogados na rua, acho que até eles são planejados. É um tipo de contrapeso, uma dosagem de fracasso pros outros verem e dizerem “coitados, vou me esforçar mais pra não acabar assim”. Mas eu não, os vejo e penso “olha que fodidos, desejaram de mais e nunca alcançaram, agora estão ai... otários”. Se bem que... A ideia de fracasso é algo muito relativo, relativo ao que se considera vitória. E também, meu jogo é outro. Talvez meu jogo seja esse, ficar aqui em frente ao espelho encenando conversas com um psicólogo imaginário, onde eu sempre tenho respostas legais. A verdade é que sei que tenho problema, sei que deveria mudar e sei o que está errado em relação o mundo.  Ou talvez seja mais fácil mudar o mundo. Talvez devesse ir a um psicólogo real..

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